A
Moenda e o Tempo: 20 anos de festival
“
Neste ano não tínhamos mais as cortinas, e o neón
deu lugar a dezenove quadros fazendo o fundo do palco, como se fosse a
parede de uma grande sala. E esta novidade era o que a Moenda queria passar
para o seu público de 20 anos. Que se sentissem bem para rever as
dezenove vencedoras e as dez escolhidas pelo público para festejar
o seu aniversário. Para muitos, aquele lugar parecia mágico,
nas mentes dos moendeiros, músicos e compositores que acompanharam
esta trajetória.
Nos dias 11, 12 e 13 de agosto de 2006, aconteceu a retrospectiva de um
dos maiores festivais de música do Rio Grande do Sul e do Brasil
e, como sempre, a chuva veio, mas só um pouquinho, diferente da
lembrada primeira Moenda. E aquela frase se ouviu e se pensou — ‘vai
chover na Moenda de novo’. O tempo passa e sempre depois de uma chuva
vem a calmaria, mas Milonga Abaixo de Mau Tempo interpretada por José Cláudio
Machado, escolhida pelo público entre as melhores não vencedoras
das 19 Moendas, fez a gente chorar. Quem nasce no Rio Grande do Sul, conhece
a vida do campo e a lida com o gado, sabe que José Cláudio
Machado cantou com alma e nos arrastou para além das fronteiras
do sentimento humano, algo de extraordinário acontecia no palco
e o público embalado em certo momento já não mais
conseguia acompanhá-lo. Era o verdadeiro homem do campo, colocando
o sentimento do amor, da paixão e da saudade de um tempo.
Mas que tempo é esse? Esporas do Vento, vencedora da 10ª Moenda,
já tinha dado o seu recado na noite anterior: ‘Ai meu pai,
minha mãe, minha casa/ Ai meus sonhos de rapaz/ Os ponteiros do
relógio/ Não podem girar para trás’.
A Moenda Festival surge neste contexto trazendo à sociedade nestes
20 anos o resgate da história e a identidade de um povo, abrindo
caminhos, dando liberdade de expressão, sem preconceitos, levando
a ser a mais democrática e pioneira para o experimentalismo. As
novidades musicais, como os trabalhos antológicos que tinham a marca
da novidade.
O envolvimento da comunidade nesta 20ª edição foi muito
emocionante dentro do ginásio, mas se deve, também, aos programas
de rádio que ocorreram e continuam ocorrendo nas escolas do município.
Cada escola ficou responsável por uma edição da Moenda
e o envolvimento dos alunos acabou atraindo a atenção de
pais e familiares para o Festival. Outro fator é o Festival de Dança
Escolar que acontece no município e que este ano foi dedicado à Moenda.
Os alunos dançaram músicas de várias edições.
Lucas Guimarães Oliveira, 12 anos, de Portão I, foi o 1º Lugar
em Dança Solo, interpretando Me Joga na Parede, Me Chama de Lagartixa.
Anualmente os alunos das redes municipal e estadual confeccionam cartazes
interpretando através de desenhos as músicas que serão
defendidas na Moenda. Este ano foi aberto um espaço para o público
infantil dentro do ginásio com o show Pandorga da Lua de Jaime Vaz
Brasil e Ricardo Freire na manhã de sexta-feira, com muitos estudantes
do interior do município, uma grande festa de arte e cultura voltada
para o público do futuro.
À
noite, durante a Moenda, os músicos, intérpretes, letristas,
todos se emocionaram com o público e esta valorização
foi o resultado da atitude de um povo que sabe reconhecer e aceitar com
espírito de renovação tudo que vem de fora, que vem
de longe em busca do novo. E se espera que a brisa continue leve e traga
nos meses de agosto, a todos nós, acordes das grandes canções.
Pois, “A GENTE CRESCE COM MÚSICA.”
Subiram no palco, sexta e sábado, as 19 vencedoras das 19 edições,
em versões mais acústicas, num clima de festa e de recordações.
Foram escolhidas as três melhores canções através
do voto popular. Entre as músicas de sexta e sábado venceram
Morada Noturna, Tropeiros do Divino e Dança dos Trigais.
No domingo, subiram as 10 músicas escolhidas pelo voto popular dentre
as 209 músicas não vencedoras das 19 edições.
Foram distribuídas 20 urnas na cidade durante dois meses para a
seleção, além do voto via Internet. São elas:
•
Lágrima de Carlos Gomes; 13ª Moenda;
•
Voz de Anjo de André Salazar; 15ª Moenda;
•
Um Canto à Terra de Carlos Catuípe e Cláudio Martins;
2ª Moenda;
•
Urubu (Mestre do Vôo) de Eudes Fraga e Joãozinho Gomes; 10ª Moenda;
•
O Festival de Fernando Corona; 11ªMoenda;
•
O Caretão da Duque e a Doidinha da Cidade Baixa de Zelito; 17ª Moenda;
•
Milonga Abaixo de Mau Tempo de Mauro Moraes; 7ª Moenda;
•
Toda a Minha Rima de Fernando Corona; 7ª Moenda;
•
Tainha do Maricá de Mauro Moraes; 7ª Moenda;
•
A Moenda e o Tempo de Mário Tressoldi e Chico Saga; 16ª Moenda;
No domingo, foi escolhida A Moenda e o Tempo pelos jurados Juarez Fonseca,
Marcelo Machado e Tânia Goulart, entre as dez concorrentes daquela
noite, para compor o disco dos 20 anos. A Moenda é simplesmente
assim: chegou aos 20 anos como uma daquelas coisas que vêm como quem
não quer nada e acabam por conquistar gerações que
ainda não tinham nascido. Ela é feita de encontros e desencontros, é uma
mistura de idéias, discussões e muito companheirismo. Para
ela acontecer, é preciso haver divergências, conversas, mas
acima de tudo é preciso saber fazer amigos. É um sonho que
nos faz voar em cada canção e quando chega a segunda-feira
temos certeza de que ao acordarmos o palco, o público, os músicos
e o festival foram um grande espetáculo. E é preciso começar
a sonhar novamente em busca do novo, novas temáticas, procurando
valorizar o passado e o presente.” (Luciano Gomes Peixoto - 2006)
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Sérgio Rojas e Zé Caradípia reinventam O
Ferido Coração da América,
de Sérgio e Luis Coronel, vencedora da 6ª Moenda.
A MOENDA E O TEMPO
Letra: Mário César Tressoldi, Mário
Simas Tressoldi e Chico Saga
Música: Mário César Tressoldi e Chico Saga
Intérpretes: Renato Júnior e Flávio Júnior
Ritmo: Catira
Cidade:
Tramandaí - RS
O dia
amanhecia
E o canavieiro
Antes do luzeiro,
"
já estava de pé".
Cortando a cana pro gado
À luz de pixirica,
Firmado na lida,
Movido na fé...
O velho canavieiro,
Mostrava pra filharada,
A arte do seu alambique:
"
— Te afirma nos fueiro pra nós ir pra estrada..."
A moenda vai girando
Com os ponteiros do tempo
E o verde dos canaviais
Vai dançando no embalo do vento.
As cantigas de então,
Vão se ouvindo pelas lonjuras.
"
— Me bota os boi nesta canga
Que é pra não falta rapadura..."
A velha carreta rangendo,
Entrava na roça
Pra ser carregada
De cana cortada.
"
— Mulher vai limpando o cilindro
que a tarde vem vindo
e a carga ta indo
pra ser esmagada..."
A mansa junta de bois,
Dois pares de olhos vendados,
Fazia brotar da engrenagem,
O caldo valioso
Pra ser fermentado...
A moenda vai girando
Com os ponteiros do tempo
E o verde dos canaviais
Vai dançando no embalo do vento.
As cantigas de então,
Vão se ouvindo pelas lonjuras.
"
— Me bota os boi nesta canga
Que é pra não falta rapadura..."
Enquanto a fornalha esquenta.
caprichosa e lenta
a garapa fermenta,
pra ser "lambicada".
Depois de estar tudo bem quente,
em boa aguardente,
pra alegrar a gente,
já sai transformada...
Fervido, está o melado,
no ponto de rapadura
e o velho e bom canavieiro
é
quem prova primeiro da sua doçura.
A moenda vai girando
Com os ponteiros do tempo
E o verde dos canaviais
Vai dançando no embalo do vento.
As cantigas de então,
Vão se ouvindo pelas lonjuras.
"
— Me bota os boi nesta canga
Que é pra não falta rapadura..."
...E hoje, a luz da pixirica
ficou na memória,
faz parte da história
de um tempo que foi.
O Engenho já foi transformado
num belo povoado,
com fio esticado,
"
Descansou os boi".
Os filhos do canavieiro
deixaram o velho só e num canto,
abandonada, ficou a moenda coberta de pó.
Pixirica:
Espécie
de Candeeiro.
Fueiro: Estaca para amparar a carga do carro de boi.
Alambicada: Destilada, no interior se usa dizer lambicada.
Garapa: Caldo de cana.
Cilindro: Peça da Moenda que tem a função de esmagar
a cana
Violão, vocal e arranjo: Mário
Tressoldi e Chico Saga
Percussão: Rodrigo Reis
Palmeiros: Clóvis Fortes, Mateus Fernandes e Júnior
Melos
>>>todas
as letras dos discos da Moenda>>

Simone Hasslan e Adriana Marques com o espetáculo
Rádio Esmeralda AM fizeram o encerramento da XX Moenda.
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