LETRAS DA 5ª MOENDA
em ordem alfabética

À MEIA-NOITE
CHORANDO PRA BRINCAR
MESA DOS INOCENTES
MEUS MATES
MEU ÚLTIMO MOMENTO
MILONGA LOUCA
PAIXÕES DE ROÇA E DE MAR
PALAMENTA
PICADEIRO DA PRAÇA XV
SOL E LUA, TESTEMUNHA
TEMPORAL
TROPEIROS DO DIVINO

 

À MEIA-NOITE

Letra e Música: Cao Guimarães
Intérprete: Victor Hugo

À meia-noite
Nos sentamos
Em volta do fogo
Das paixões
À beira da lagoa misteriosa
Da sabedoria
De algum cantador.

À meia-noite nós
E o coração na voz
E o violão sonhando
Milongas de vento.

À meia-noite, amei,
A noite
O fogo
A água
O vento
O violão
E nós
Em mim.

 

CHORANDO PRA BRINCAR

Letra e Música: Cao Guimarães
Intérprete: Loma

Deixa teu filho crescer,
sobre os próprios pés,
quem és pra reger o destino deste homem do futuro?
Esse guri, tu já verás,
romper os próprios nós, quem somos nós,
para ensinar nossas crianças?

Esse guri será, talvez, mais um peão normal,
e bem ou mal, talvez se torne mais um capataz,
e é bem capaz de ser fiel às velhas tradições,
pois sabe lá que opiniões terá ou não terá.

Esse guri virá depois, já feito, amando alguém,
e mal ou bem, fará também os seus filhos de deus,
e sabe deus a quantas vai andar o mundo então,
se vai pela hora da morte a civilização.

Deixa teu filho te ver,
com seus próprios olhos,
quem há de apontar um caminho, a quem não sabe onde vai?
Esse guri aprenderá por si a dizer não,
e, por que não, vai ensinar aos ancestrais.

Deixa teu filho brincar...

 

MESA DOS INOCENTES

Letra: Miguel Bicca e Caeco Batista
Música: Mauro Moraes
Intérprete: Zé Caradípia

Os pais são filhos ou netos
De campeiros que emigraram,
argando a doma dos potros,
prá empurrar carros de mão;
Cambiaram seus campos verdes
Que viam ao clarear do dia,
Por léguas de sesmarias,
Cinzentadas de concreto.

Perderam o rumo das roças,
E a noção dos horizontes,
Pra se amontoar como ratos
Nas cabeceiras de ponte.

Quem teve doces na infância
Quando come não se suja,
Mas quem nunca comeu doces,
quando come se lambusa...

Caras magras lambusadas,
Olhos grandes regalados,
Prá "mesa dos inocentes",
— Promessa que o povo faz —
E um verão de cigarras
No coração dos piás.

Imagens de santos velhos
Olham a infância no altar:
Anjos loiros transparentes,
Com asas pra não voar...

(Sobre tema do folclore gaúcho)

 

MEUS MATES

Letra E Música: Adílson Moura
Intérprete: Adílson Moura

Fiz um mate mais comprido
porque sei que ela não vem;
foi daqui a um par de dias,

deixou a casa vazia
e o meu coração também.

Vou gastando os maus momentos
nesses mates demorados;
sem porque, sem um aviso
foi levando o meu sorriso,
os avios, o meu passado.

E eram tantos mates curtos
cevados nas nossas mãos;
seu adeus amarga a vida,
os versos, o chimarrão.

verdes olhos, verdes mates
de quem foi pra não voltar;
flor gaúcha que colhi,
era tão lindo isso aqui.
como vou viver sem par?

 

MEU ÚLTIMO MOMENTO

Letra: Cesar Matesich
Música: Talo Pereira
Intérprete: Eraci Rocha

Tomara que se tarde minha tarde
meu sol desça tranquilo e devagar
que eu rume pela noite sem alarde
e vá me amanhecer noutro lugar.

Tomara que me voltem aos sentidos
meus sonhos mais antigos e distantes
sorrisos, vozes, gestos e semblantes
que ficaram ausentes ou perdidos.

Tomara que meu último momento
me seja dos momentos mais amigos
e o que tenha de bom no pensamento
tenha a virtude de partir comigo.

Então me vou feliz e decidido
a descer com meu sol sobre o horizonte
sem mágoa, sem receio e convencido
de que vou renascer da própria morte!

Que vou na eternidade de um presente
quem sabe feito de meus bons outroras
tomar um mate com quem foi na frente
buscando a luz de todas as auroras.

 

MILONGA LOUCA

Letra: Waine Darde
Música: Elton Saldanha
Intérprete: Elton Saldanha

Ando louco pelos campos
Seguindo o rumo dos ventos
Busco a luz dos pirilampos
E as flores dos cataventos
Nas veias dos girassóis
Navego na ventania
Vou atrás desses cristais
Lá no cais do fim do dia
Milonga louca de linda
Pra ela que é mais ainda
Milonga que ela te ouça
Pra saber o quanto é louca

Milonga louca, milonga louca
Toda poesia parece pouca
Milonga louca, milonga louca
Todas palavras viajam no céu da boca
Milonga louca, milonga louca
Milonga louca, milonga louca
Eu só queria cantar-te um dia

Pra essa moça

Na taça frágil dos lírios
Bebo a canha das estrelas
Me emborracho num delírio
quando a noite se destelha
Disfarces desse tamanho
O resto é só uma poesia
Parece que sou cigano
A sorte é que não me guia
Milonga...

 

PAIXÕES DE ROÇA E DE MAR

Letra: Robson Barenho
Música: Talo Pereyra
Intérprete: João de Almeida Neto

Paixões de roça e de mar
acordam ventos gerais
se é noite de delirar
amar demais.
Paixões de roça e de mar
acalmam os quatro ventos
se é noite só de ninar
com beijos lentos.

Nas horas de dizer nada
por falta de alguém que ouça
perfuma-se aquela moça
que tem paixão cultivada.
eu homem às vezes rude
às vezes macio de chuva
virá com flores de açude
desejos e cachos de uvas.

Nas horas de dizer nada
por falta de quem responda
perfuma-se aquela amada
que tem paixão vinda em ondas.
sou homem de gestos largos
(que assim o mar acostuma)
virá com dedos de espuma
cair em rede de afagos.

Paixões de roça e de mar...

 

PALAMENTA

Letra: Ivo Ladislau
Música: Carlos Catuípe
Intérprete: Tambo do Bando

Este barco
Palamentado
Vai saindo
Atrasado.
É por culpa
Do João da Nica
Que se perdeu
Nas tiriricas.

Olha a manta
De tainha
Lá pra cima
Já se alinha.
"Pega" o suesse
E o xergão,
Muito cuidado
Com o nordestão.

"Se muda o vento, muda o tempo"
Nestas águas de ninguém,
No balanço destas ondas
A vida joga também...

Aperta os bentos
Seu proeiro,
Pra afastar
O nevoeiro.
Tá lá na praia
A rapariga
A moça é minha
Tá pidida...

Olha a ressolha,
anceia a rede
E é puxada
Pra "matá" a sede
A noite porfia
Revirado e alegria,
O mar nos espera,
Nas barras do dia.

Vocabulário:
Palamenta: equipamento de pesca
Suesse: chapéu de oleado
Xergão: manta de lã bruta
Bentos: talismãs
Pidida: noiva
Ressolha: brilho que o cardume provoca na água.

 

PICADEIRO DA PRAÇA XV

Letra e Música: Alejandro Massiotti
Intérprete: Alejandro Massiotti

O ninguém ladrão e o ninguém guardião
faziam seu show
no picadeiro da Praça XV
mesclando o suor e a raiva e a dor
e a fome de amor
no picadeiro da Praça XV
— Tem que matar, tem que ensinar a não roubar
clamava — revoltado — um assistente
era um ninguém como o ladrão
igual ao guardião
que faziam seu show

no picadeiro da Praça XV,
tem um gordo com charuto
contabilizando a vida
um aprendiz de pivete
e uma loura de aluguel.

Sonham os ninguéns
no picadeiro da Praça XV
um dia ser alguém
no picadeiro da Praça XV
e morrem também
no picadeiro da Praça XV
por serem ninguéns
no picadeiro da Praça XV.

 

SOL E LUA, TESTEMUNHAS

Letra: Antônio Carlos Machado
Música: Daniel Morales
Intérprete: Eraci Rocha

Já passava o meio-dia
A sesta estava no meio
As minhas roupas e as dela
Descansavam num esteio

O barulho do silêncio
Acordou minha amada
O Sol na quincha do rancho
No meu catre fez morada
Cobriu o corpo da china
E avermelhou o romance
Um gemido quase um grito
Fez-se eco num relance

O Sol da tarde queimava
A pele como um açoite
E eu levava a esperança
Que logo chegasse a noite

O breu cobriu o meu pampa
E a cena se repetiu
A sesta da meia-noite
Foi só a Lua que viu.

 

TEMPORAL

Letra: Colmar Duarte
Música: Sérgio Rojas
Intérprete: Sérgio Rojas

O vento põe sarandeios
Na copa dos cinamomos.
Ribomba um bombo legüero
No malambo das trovoadas —
E a chuva risca de esporas
O zinco e a madrugada.

Na cara dos que mateiam
Fogueia um fogo de chão
— Pintando vultos disformes
Com seu pincel de carvão —
Pondo sombras embuçadas
Nas paredes do galpão.

Os cuscos enrodilhados,
Ouvindo uivos velados
Tremem de medo e de frio.

Com uma quena assombrada
Sopra o vento em saraivada
O seu lúgubre assobio.

 

TROPEIROS DO DIVINO

Letra: Ivo Ladislau
Música: Carlos Catuípe
Intérprete: Carlos catuípe e Cléa Gomes

Chegada

Os tropeiros do divino,
De fazenda em fazenda,
Logo depois da bandeira,
Vêm buscar as oferendas.

A bandeira do divino,
Pela poeira da estrada,
Veio repleta de luz,
Passou nesta morada.

O alferes, o tamboreiro,
Rabeca, viola, violão,
Vieram com o festeiro,
Na sua visitação...

Oh! de casa meu senhor
A bandeira tá chegando
A bandeira tá chegando

Louvação

A casa foi abençoada
E também a plantação,
A mangueira, os currais,
Ao doente proteção.

Peditório

Um pouco de cada um,
Sempre vale o ofertório,
O leilão quebrará o jejum,
A festa, o foguetório.

Agradecimento

A bandeira foi embora,
Agradeceu a família,
Para o ano ela volta,
Voltará com a folia.

Despedida

Os tropeiros do divino,
Se despedem em cantorias,
Vão pela estrada afora
Repontando alegria...

Por esta porta “entremo”
Por esta mesmo "saímo"
Por esta mesmo "saímo"