LETRAS DA 10ª MOENDA
em ordem alfabética

AQUI ME PONHO A CANTAR
BALADA BOVINA
CAPÃO DA NEGRADA
CORAÇÃO CORISCO
ESPORAS DO VENTO
LABIRINTOS
MANJERICÃO
MORENA SEREIA
POÉTICA
PRA TODOS NÓS
RUMO AZUL
URUBU (MESTRE DO VÔO)

 

AQUI ME PONHO A CANTAR
(Felip Elizalde)
Intérprete:Felipe Elizalde

Aqui me ponho a cantar
as coisas que ao cantar me vêm
cantar me leva a lugares
onde estar jamais pensei.

Estar ao pé de um poema
feito em mim por quem não sei
poema feito de outros
poemas - de onde vêm?

Vêm de viagem no verso de tudo
vêm pela via, ao redor reluz
poema nasce andaluz
vai do Alegrete ao Bom Jesus
ponteando nasce ao pé da cruz
no passo de los libres
vai de Buenos Aires a Valparaíso
vem até onde estou
vem de onde nunca se soube
como alguém foi e voltou.

Voltou e viu no Rio Pardo
um tempo que era vivo então
uns dias andam por perto
outros dias longe vão.

E vê-se tempos em tempos
feito trens em baldeação
uns tempos andam nos trilhos
outros saltam do vagão.

Saltam no escuro asfalto futuro
a lua cheia lhe dá a luz
um tempo canta enquanto rui
outro se encanta enquanto flui
tempo de trégua onde não fui
o tempo - todo - é guerra
tempo que se apaga
tempo que se apaga
tempo: trem pagador
paga os silêncios dos pagos
e apaga o esplendor do esplendor.

Olhando o halo da lua
só comigo deparei
parei pra ter a beleza
a lembrar quem não tem.

"Beleza não põe mesa"
"beleza não traz vintém"
beleza põe na tristeza
o dom de uma alegria além.

Éramos feitos a ferro e a fogo
éramos feitos a mão
éramos uns dias loucos
outros pelo diapasão

No longo lombo do tempo
o sol revai, revém
vai no desleixo do eixo
vem vindo sobre o trem.

Violão: Felipe Elizalde
Tablas e Buli: Filipi Lua
Baixo: Ricardo Baumgarten
Arranjo: ColetivoS

 

BALADA BOVINA
(Felipe Mello, Daniel Moreira, Daniel Conceição, Rodrigo Martins e Rodrigo Osório)
Intérprete:Banda Doidivanas

Eras vaqueano
mas não eras um vivaracho
vivias no cortado
num apertado barbicacho
eras macanudo que testavilhou
já te digo mano véio, ela te sofreneou

"Tá" certo que era um chinocão
e a sua cangalha te prendia o coração
"tá" mais judiado que sovaco de perneta
eu sei, a china te marcou toda a paleta.

Aquela pinguacha é flor de bagaceira!
Homen e mulher guasqueando não dá parte
ao delegado.

Mulher, cana e bolacha
em qualquer canto a gente acha
te apruma pro bailado
tem que "honrá" tuas "bombacha"
sirigaita é como o vento
ninguém prende nem aparta
se vier se "rebolando"
no relance a gente salta!

"Tá" certo que era um chinocão
e a sua cangalha te prendia o coração
"tá" mais judiado que sovaco de perneta
Eu sei a china te marcou toda a paleta

Onde manda a cachaça se entoca o juizo!
pegui minhas boleadera e fui "de atrás" do animal!

Voz e Violão aço: Felipe Mello
Baixo: Rodrigo Osório
Guitarra: Daniel Conceição
Bateria: Rodrigo Martin
Acordeon: Luciano Maia
Arranjo: Banda Doidivanas

 

CAPÃO DA NEGRADA
(Beto Bollo/ Ivo Ladislau)
Intérprete:Sergio Mohá

Cruzei ná na prainha,
pro capão da negrada,
prá "vendeê" as bugigangas
"saímo " de revessa,
a lestada nos pegou,
"caímo" na emboscada.

O vento respira forte
aponta a morte
se "escapá" sou procissão
o vento respira forte
aponta a morte
é um tambor o coração.

Toca pro capão da negrada,
que a canoa tá atulhada,
cá no meio não dá pé.
Eu já "tô" chamando o Santo,
protetor dos negros bantos
ai, minha figa de guiné.

Mas não sei se vou "aguentá",
pois tenho coisas por zelar:
tem a Maria, tem meu pandeiro,
meu tambor, meu macachá...
oh Santo vê se manda,
um mais "véio" pro lado de lá.

Capão da negrada
onde fica a conoa, (quinhentas braçadas)
capão da negrada,
refúgio da raça, (trezentas braçadas)
capão da negrada,
o que vale a vida? (pra mim mais cem braçadas)
capão da negrada,
tá lá os "água pé" (mais cinquenta braçadas)
e "bamo de pé"
se o Santo "quizé".

Violão: Beto Bollo
Guitarra: Paulinho Fagundes
Bateria: Kiko Freitas
Baixo: Ricardo Baumbarten
Arranjo: Coletivo

CORAÇÃO CORISCO
(João Aluá e Chico Lobo)
Intérprete:João Aluá

Coração de violeiro, bate tão ligeiro
não dá pra ficar
levanta o pó da estrada
em busca de fronteira por se desvendar.

O coração desse danado
tem fogo de um corisco
num relampejo de coragem
enfrenta os desafios.

Uma polca, um rasqueado, um tererê gelado
e um bom chamamé, na batida do catira
ou numa folia e num arrasta pé.

O coração desse danado
na vazante do destino
vai descendo rio abaixo
espantando os desatinos.

E quando surge na serra
o brilho da luz do luar
beijando a terra, as matas, os rios
desse meu lugar.

O violeiro pega na viola para pontear
o violeiro pega na viola e canta pro luar.

Baixo: André Salazar
Bateria: Sorriso
Teclado: Kilton Prates
Viola 10 cordas: Paulinho Machado
Acordeon: Libório
Arranjo: Coletivo

 

ESPORAS DO VENTO
(Lenin Nuñes/ Luiz Coronel)
Intérprete:Vinicius Brun

Quando o Rio Grande era grande
era maior que o mundo
era maior que o mundo
e um pouco menor que o País.

Com as esporas do vento
galopei o mar e a serra.
Perguntei por esse pampa
que se passa com esta terra.

Pra falar bem a verdade
a gente não "tá" feliz.

Ai meu pai, minha mãe, minha casa
ai meus sonhos de rapaz.
Os ponteiros do relógio
não podem girar para trás.

Quero-quero se assustou
com o toque do celular.
No galpão se ouve novelas
o tempo não sabe parar.

Só de mitos e lembranças
são trinta arroubas e meia.
A carreta da história
não pode andar de tão cheia.

Pra falar bem a verdade...

Violino: Omar Aguirre
Viola: Álvaro Aguirre

Baixo: Ricardo Baumgarten
Violão: Lenin Nuñes
Arranjo: Alejandro Massiotti

 

LABIRINTOS
(Mano Oliveira/ Mauro Marques)
Intérprete:Flávio Hansen

Um candeêiro a me encilhar penumbras
uma paixão a me querer ardente;
o teu perfume e o teu jeito doce
a me envolver e me encontrar carente.

Tua presença abre a porta e chega.
Lá fora, vive uma garoa... e dança!
Outra milonga choraminga o rancho...
dentro do peito o coração se amansa.

Então, eu saio pra os meus impossíveis
e bebo a imagem que me invade a mente.
Não há cancela que segure o sonho
que me atropela, me fazendo ausente.

É tarde da noite louca toma rumo.
Só eu me perco nos seus labirintos.
Coincidências de um destino incerto,
nos encontrando apenas por instinto.

Ah, que milonga carboteira
ame cobrar o seu preço,
a derrubar as porteiras,
a revirar meus avessos.

Todas miragens vão ganhando formas,
parindo vícios de um requer aflito,
beijos e juras, madrugadas a fora,
gemidos roucos, suplicando gritos.

A chuva pára e a lua nos visita...
o rancho beija a mansidão da calma.
Todo silêncio a não quebrar encantos.
No velho quarto... o adormecer das almas!

Teclados: Dado Jaeger
Violão: Mauro Marques
Bateria: RicardoArenhaudt
Baico: Clovis Boca Freire
Trompete: Jorginho do Trompete
Arranjo: Dado Jaeger

 

MANJERICÃO
(Carlos Catuípe/ Ivo Ladislau)
Intérprete:Victor Hugo e Cléia Gomes

Plantei o manjericão
bem perto de tua janela.
Pra perfumar tua noite,
E eu ficar com ciúmes dela.

Quem dança o manjericão,
as rodas dentro de si,
já vi de várias maneiras
Eu danço como aprendi:

Quando a cantiga começa,
as rodas estão formadas,
mulheres bailam de frente
todas elas emparceiradas.

E os homens batem palmas,
pra chamar mais atenção.
Batem forte com o pé,
fazendo a marcação...

Dançando o manjericão,
às vezes se bate o pé.
O meu coração é teu, ai
O teu não sei de quem é!

E vai -se cantando e furando,
mas no final da cantiga,
voltamos a bailar de frente,
essa marca bem antiga.

(o manjericão é um gênero musical pesquisado e resgatado no litoral norte do RS, de tradição açoriana...)

Violão e Vocal: Catuípe Jr
Viola e Vocal: Carlos Catuípe
Baixo: Gilberto Almeida
Teclado: Fabiano Saraiva

 

MORENA SEREIA
(Kako Xavier e Marcelo Polido)
Intérprete:Kako Xavier

O mar não tá prá peixe, a gente precisa lutar
eu vou pegar minha canoa e vou prá lagoa pescar.
Os "home tão é brincando", roubando nosso quinhão
tão matando a sardinha que é prá alimentar tubarão.

Eu me plantei em minha gente
e vi minha semente brotar
acreditei em tua sede, vi minha rede furar,
eu já cantei a esperança e vi minha criança chorar,
hoje me canto em cada verso, só pra te ouvir cantar...

Foi cantando pro mar
que eu te vi lá na areia
estrela marinha, morena sereia...

Eu sou lobo do mar, não entrego a sereia de saia.
Eu nasci na serra,
me criei no campo,
não morro na praia.

o mar não tá pra peixe...

Guitarra e Vocal: Rafael Brasil
Baixo e Vocal: Meco Dutra
Percussão e Vocal: Alexandre
Percussão: Giovani Berti
Teclado e Vocal: Fernando Corona
Bateria e Vocal: Bebeto Mohr
Arranjo: Kako Xavier.



POÉTICA
(Talo Pereyra e Mauro Moraes/ Robson Barenho))
Intérprete:Chico Sarat e Neto Fagundes

Em todas às manhãs,
solenemente,
ela inaugura uma ilusão.
Se der tempo ainda,
escova os dentes
e beija o amante de plantão.

Todas as manhãs,
mesmo as chuvosas,
ele homenageia com sonetos.
Ouve o noticiário, planta rosas
e convida o sol a um café preto.

Sei que essa morena,
quando acorda,
olha tudo atenta, qual vigia.
E se é dia escuro
pinta e borda
até resgatar a luz do dia.

Sei que esta canção
ainda é pequena
pra que eu dome, enfim, seu coração,
mas deve agradar a essa morena
que trabalha em volta do fogão.

Guitarra: Paulinho Fagundes
Baixo: Renato Mujeiko
Trompete: Jorginho do Trompete
Percussão: Ernesto Fagundes
Bateria: Juá Ferreira
Arranjo: Neto Fagundes

 

PRA TODOS NÓS
(Fernando Corona)
Intérprete:Kako Xvier

Gil é Mandela e Mandela é Gil
iluminando a cidade.
Tá no gingado, tá no sorriso infantil
a beleza plena da liberdade.

Tambores de Salvador,
clamores de Áfricas
benvindos sejam os homens
de mente clara
e pé no ritmo.
Nos becos de tanta dor
onde o ódio fez o seu cais,
louvados sejam os homens
que acreditam que o prazer é bom
quando é prá todos nós.

Soweto esteja em paz
com benção do redentor.
Benvindos sejam os homens
de inesgotável fé e criação.
Nos guetos de puro rancor
onde a justiça foi incapaz,
louvados sejam os homens
que acreditam que o prazer é bom
quando é prá todos nós.

Teclado e Vocal: Fernando Corona
Baixo e Vocal: Meco Dutra
Teclado e Vocal: New
Percussão: Alexandre/ Giovani Berti
Bateria e Vocal: Bebeto Mohr
Vocal: Rafael Brasil
Arranjo: Fernando Corona

 

RUMO AZUL
(Sandro de Souza)
Intérprete:Loma

Vento leva
alma leve
ao som do mar
quando o sol desponta
o céu se apronta no azular

Vem de longe
a canção que há em nós
demais...
um ruído azul
manhã de paz.

Eu trago a música das ondas
eu trago a benção de Oxalá

Trago comigo a reza das águas
águas para um novo sul
duna que o vento muda com o tempo
vento de um rumo azul

No horizonte
que une o azul do céu e o mar
nasce a fé, a crença
e busca um povo
um porto, um cais

Vem de longe
a dança que há em nós
demais...
um balanço azul
manhã de paz.

Tecaldo: Marcelo Lemahn
Teclado: Alexandre
Violão: Sandro Souza
Arranjo: Coletivo

 

URUBU (MESTRE DO VÔO)
(Eudes Fraga/ Joãozinho Gomes)
Intérprete:Eudes Fraga

Perdoa a mão que te apedreja
perdoa quem não te perdoa
perdoa a pedra que te alveja
perdoa o preconceito e voa
para que todo homen veja
que quem divinamente voa
quem come o podre que ele deixa
não pode ser inútil à-toa
gari de terno preto e asas
perdoa o preconceito e voa.

Mestre do vôo
divino réu
anjo de cor
gari do céu
no imenso azul e branco véu
cumpre urubu o teu papel.

Perdoa a voz que te pragueja
quem simplesmente te caçoa
perdoa o chute que te aleija
perdoa a estupidez e voa
para que todo o homen veja
que o teu agouro é coisa boa
que todo azar é uma trapaça
do próprio ego das pessoas
gari de terno preto e asas
perdoa a estupidez e voa.

Violão e Arranjo: Eudes Fraga