LETRAS DA 21ª MOENDA
em ordem alfabética

AFRICANO SERTÃO
250 ANOS
BASTO DE DOMA
CHAGA, A
CIDADE BAIXA
DESTRAMBELHADO
DUAS VOZES DE CANDOMBE
É DOMA, É DOMA
FRUTO E POMAR
GALANGA REI
MESTRE GICA
PRAINHA E MORRO ALTO
RIO DOCE
ROMANCE DE MEIA DOMA
SABENÇAS
TIRANA DO POVO
TROPEIROS DO DIVINO
UMA COISA SÓ
ZÉ DO BURRO

 

AFRICANO SERTÃO
Letra e música: Carlos Gomes
Intérprete: Ivânia Catarina

Nzambi até corou
Quando o “loirin” veio de lá
E achou estranha a cor
Quis ver negro se humilhar

O aldeão, sem um pio, reagiu
Rugiu de fera, um leão
Bantu de fé no seu deus, que era bom
Mas que não tinha canhão

Na terra do amor
Ganância do invasor
Semeou ódio e dor
Tentou calar o tambor

Aí o rei, sem saber o que fazer
Estendeu sua mão
E entregou, do africano sertão
O ouro de aluvião

“eme, afrika, kalundu iami
maza ene abu ixi iami, ixi ietu
batula ni poko iê
jindandu ia mama” (1)

(1) = Tradução:
“ Eu sou África e celebro meus ancestrais
mesmo que invasores sujem a nossa
á gua, a nossa terra e machuquem os
nossos entes queridos”

Violão e vocal: Carlos Gomes
Percussão: Eduardo Sueit e Ton Zé

 

250 ANOS
Letra: Ivo Ladislau
Música: Carlos Catuípe
Intérpretes: Carlos Catuípe e Cléa Gomes

Era o vento, o índio, as vacarias.
Depois os tropeiros, as sesmarias.
Foi se desenhando o coração,
Já antevendo as freguesias...

... então chegou o Açoriano,
Povoando caminhos.
O jeito doce do insulano,
Soube acariciar os espinhos.

Se foram os anos,
Procissão de fé.
Viva as cantorias,
E o arrasta-pé.
Muita tradição,
Amor por demais,
Neste muito alegre,
Porto dos Casais.

Há marcas açorianas,
Da lida até as folias.
No casario em linha,
Mil coisas por lembrar:
bordados, doçarias,
folguedos, o Pezinho...
Divino então reporta,
Um Terno a nossa porta...
Criança a brincar:
Sapata, o Passa-anel.
Ciranda-cirandinha,
Vamos todos cirandar.

Baixo e vocal: Mario Gubert
Percussão: PC
Tambores de maçambique: Salgado e Mário Duleodato
Declamação: Romeu Weber
Violino: Ben-hur Benitz
Participação especial: Dança Casa dos Açores
Grupo Maçambique e Pérola Negra

 

BASTO DE DOMA
De Ricardo Martins
Intérpretes: Ricardo Martins e Pirisca Greco

Andas de tento sovado
Sentindo dor nas basteiras
Mas tu’alma de crineira
Segue rangendo carona
Cortindo de tanta doma
Te moldaste ao travessão
Sobre a cruz de um redomão
Falquejaste teu idioma
O roce eterno dos loros
Carregas no costilhar
Do meu jeito de sonhar
Também és conhecedor
Pois quando no corredor
Te alcançava por pasto
Recostando em ti meu basto
Recordava alguma flor
A cicatriz no teu lombo
E o nome de ‘recado’
Linguajar apaisanado
Que trouxeste da fronteira
Quando uma égua traiçoeira
Se deu volta encilhada
Te escorou numa trompada
Bem no pé de uma tronquera
Ao te ver junto da cherga
Recostando na carona
E uma cincha querendona
Com um nó na barrigueira
Cheia de potro e mangueira
Porque o setembro me cobra
Vai ter serviço de sobra
Meu velho basto de doma

Marcelo Pimentel: percussão
Marcelo Nunes: gaita botoneira
Juca Duarte: baixo
Evair Gomes: recitado
Ricardo Martins: violão

 

A CHAGA
Letra: Caetano Silveira
Música: Fausto Prado
Intérpretes: Andréa Cavalheiro, Alex Alano e Ana Krüger

Caneco, lavanda, chinelo,
Boteco, de samba, martelo,
Um teco, na banda, magrelo,
Xaveco, uma muamba.

Noite do Bom Fim amolado
Um naco de nada na pança,
Criança, vapor de fumaça,
Boneco de cachaça. Desgraça

Um treco, paranga, farelo
Tareco, de canga, um berro,
Jaleco, capanga e ferro,
Flagelo da Ipiranga

Sirene, sinal e freada,
Parede, e é mão na cabeça,
A besta do abuso, à beça,
Foi dessa pra melhor

Como quem cheira,
Como quem chora,
Como quem chaga
Nossa Senhora

A vida segue em seu encalço
Na calçada da infâmia drama em seu primeiro ato
A toa atua clandestino
Menino homem moleque soldado sem tempo de ser menino

Como quem cheira,
Como quem chora,
Como quem chaga
Nossa Senhora

Guitarra e arranjo: Fausto Prado
Bateria: Mano Gomes
Percussão: Giovanni Berti
Teclados: New e Vitor Peixoto
Baixo: Cesar Moraes
Ator do vídeo: João França
Edição de vídeo: João Seggiaro

 

CIDADE BAIXA
Letra: Caetano Silveira
Música: Fausto Prado
Intérpretes: Andréa Cavalheiro, Alex Alano e Ana Krüger

Crepúsculo ou ocaso, casa, chuveiro e rango
Noite de jeans camiseta, chave da porta, carango
Rádio, sinal e janela, um bêbado bambo, bambo
Cidade baixa das almas, flanelinha cor de jambo

Esquina, escambo, esquina

Cidade baixa, das almas, muitos desejos e caras.
Caras de loucos e tristes e outras caras às claras.
Bar do Marinho, cerveja, bandeja, batom, tiara.
Guitarra, outro sorriso, sobejo, desejo e tara.

Esquina, escambo, esquina

Guitarra, outro sorriso convite mesa cadeira
Palavra copo sorriso desejo de quinta-feira
Sem verso sem verbo: nada,
em bocas de saideira
Relógio trampo cadeia
conta dinheiro carteira

Esquina, escambo, esquina

Mais uma noite de pura paixão
Mais uma noite de pura ilusão
Mais uma noite de pura
Cidade baixa

O verbo, a palavra, a ação?
Não, não, não, não
Não, não, não, não

Guitarra e arranjo: Fausto Prado
Bateria: Mano Gomes
Percussão: Giovanni Berti
Teclados: New e Vitor Peixoto
Baixo: Cesar Moraes
Ator do vídeo: João França
Edição de vídeo: João Seggiaro

 

DESTRAMBELHADO
Letra: Caetano Silveira
Música: Fausto Prado
Intérpretes: Andréa Cavalheiro, Alex Alano e Ana Krüger

Perdido na República
Sou um cavalo alado destrambelhado
Me leva embora daqui
Casa do tempo, ampulheta
Doente relógio todo torto,
Doente relógio torto
Derrama areia de cima abaixo
Derrama areia de cima abaixo
Falta tempo pra te falar
Tenho tanto pra te dizer
O teu sinal, é só ele que pode me deter
O teu sinal, é só ele que pode me deter
Sei não mas tá, japonês
Com jeito de Van Gogh
Sei não mas tá
Sei não mas tá com jeito

Guitarra e arranjo: Fausto Prado
Bateria: Mano Gomes
Percussão: Giovanni Berti
Teclados: New e Vitor Peixoto
Baixo: Cesar Moraes
Ator do vídeo: João França
Edição de vídeo: João Seggiaro

 

DUAS VOZES DE CANDOMBE
Criado por Mariana Vellinho, de Porto Alegre, Ângelo Franco de Santiago e Miguel Tejera, de Rivera
Intérprete: Pirisca Grecco

Mediador (fala)
— Somos feitos de matéria e espírito...
A casca, superficial e efêmera, veste a essência que permanece intacta.
Existe dualidade em nós e em tudo que nos cerca: se estamos de olhos fechados não quer dizer que não possamos ver...
Saboreamos a noite porque sabemos que amanhã nascerá o sol.
A dúvida existe para podermos escolher: ser levados pela correnteza ou o próprio caminho fazer.

Tema 1:
“Cai a noite, sobre o sol
Mostra sua sombra
A lua já se esvai em cor
Sobre tua alcova
Candombe canta o amor
e sangue.

E se sopra o vento nessa noite
É pra te levar quem sabe aonde
Ninguém sabe quem beijar
Tua fronte.

Pode ser canto
Beijo de fada
Ninando sonhos
Na madrugada

Pode ser treva
Turvando as horas
Roubando almas
Antes da aurora”

Figura A:
— A cada dia que te vês afogado em pranto,
E imploras por misericórdia
A milícia brilhante dos que te guiam
Desvia doença e discórdia
E ao passo que baixa a poeira
Mais te escurece a memória
Não sei porque cargas d’água segue assim a tua história!
Se o pouco é culpa dos céus, porque são tuas as glórias?

Figura B:
— Sentes o calor tranqüilo da minha companhia?
É só querer...
Não há cobrança no mundo real dos amigos,
É fácil ver
Faço por ti, não quero saber, depois se vê.
Se é alma que peço não vais precisar
Depois de morrer.

Tema 2
“Segue a noite a perguntar
Com seus mistérios
O silêncio grita em paz
Pelo hemisfério
Candombe bate o tambor
Do tempo.”

Mediador
Batem os tambores do tempo
Na sua cronologia
E na angústia dos relógios
As horas matam os dias
Depois sangrando em minutos
Sua ampulheta vazia
Diz que o eterno está velho
Desde que o mundo nascia
Desde que o mundo nascia.

Figura B:
— Por que vais viver sofrendo
se tens melhor opção?
Por que as geleiras do inverno
se tens o sol do verão?
Por que se te dão é benção
Se te dou é tentação?
Eles te cobram agora
Prometendo redenção
E eu, que não peço nada,
Sou taxado de vilão.
Quem garante que depois
Eles não te deixarão?
Quem garante que o depois
Não passa de uma ilusão?

Figura A:
— Um dia tu abriste os olhos
junto ao colo materno
Bebeste o leite sagrado
Das fontes do amor eterno
Que jamais te fora pouco
No seu sentido mais terno
E ainda vens ponderar
Sentenças vindas do inferno?
Quem pensas que te cuidava
Da primavera ao inverno
Quando só havia inocência
No teu coração fraterno.

Tema 3:
“Vai a noite brilha o sol
Segue o destino
Novo dia, nova luz
Sobre o caminho
Candombe segue a bater
No peito

E quando tudo passa fica o nada
Que não é vazio
porque tem cara
Cara de tristeza disfarçada

E o seu sorriso
Que veste pranto
Ninguém enxerga
Eu te garanto

Assim é a vida
‘ser ou não ser’
Já disse um homem
Por não saber”

Mediador:
Não há quem diga onde está o seu verdadeiro eu
Se na face exposta à luz, ou no que a noite escondeu
Tambores batem no peito, ninguém sabe quem bateu
São duas as mãos do tempo, a que está e a que se perdeu
Duas sementes de som desde que o mundo nasceu
Tamborilando das trevas ao alvo mundo de Deus
Um candombe que não finda porque não amanheceu.

Ficha Técnica:
Alejandro Massiotti – mediador
Mariana Vellinho – figuras A e B
Pirisca Grecco – voz
Ângelo Franco – voz
Daniel Zanotelli –sax
Eduardo Varela – piano
 ngelo Primon – guitarra
Miguel Tejera – contrabaixo
Mimo Aires – percussão
Martin Cruz – bateria
Mirco Zanini– iluminação

 

É DOMA, É DOMA
De Ricardo Martins
Intérpretes: Ricardo Martins e Pirisca Greco

Se escancara a porteira
Que o laço não faz barriga
Numa reboleira de crina
De um potro recém pegado
Estirado sobre os bastos
Qual duas azas de morcegos
Um peleguito moreno
Num maneador debruçado
É doma, é doma
E as choronas que são flor de tagarelas
Trazem uma quietude com elas
De se meter se preciso
Com certeza é o pé no estribo
E a mão canhota na rédea
Qual vou terceando com elas
Num despraião campo lizo
Numa cantoria de esporas
E aos manotaços na cara
O tempo fróxa as amarras
N’outro galope que soma
É um quadro xucro a doma
Um forssejando com outro
É a imagem de homam e porto
Que campo afora se assoma
É doma, é doma
E das boconas num clarear de primavera
Se trançam as duas feras
Numa luta por igual
D’onde a fúria de um bagual
Nunca que foi coisa pouca
E o tento em volta da boca
Vai floriando o pastissal

Marcelo Pimentel: percussão
Marcelo Nunes: gaita botoneira
Juca Duarte: baixo
Evair Gomes: recitado
Ricardo Martins: violão

 

FRUTO E POMAR
Letra e Música de Wolf Borges
Intérprete: Wolf Borges

Rio que molda na rocha
Esculpe nas águas piçarra
Que leito se faz
Barro que roda na forma
Faz forma de santo
Na roca de roça e mais

E na jangada vem
E arma engenho e vem
Pilão pisar
]Água de poço tem
Chincha de sela tem
Fruto e pomar

Quais os planos nesse olhar
Que torna tudo complexo
Mera certeza
Tudo que é simples desfaz
Quais os riscos nesse olhar
Que gera todo reverso
Luzes acesas
Arte do brilho de paz.

Violão e vocal: Rafael Toledo
Percussao: Giovanni Berti
Teclados e vocal: Omar Fontes Junior

 

GALANGA REI
Letra e música: Carlos Gomes
Intérprete: Ivânia Catarina

Ô de dentro, ô de fora
Louvemos a Nossa Senhora
Sikelel`iAfrika

Conta a lenda que por força do batismo cristão
Galanga virou Chico Rei pra desadorar Zambi, o Deus do pagão
No Kalunga, no Madalena, nas ondas que vão e vem
Malungos trazendo no peito tambores e a força que o negro tem

Os “bantus” presos nos tumbeiros cantavam pra Nossa Senhora
Pra São Benedito e pro sete-estrelo: cuidai de nós nessa hora
Galanga Ganga, nKosi ê, enricou no além-mar
Juntou sua tribo num terreiro e fez festa pra Zumbarandá

Foi com o ouro da Encardideira
Que salvou o seu filho Muzinga, foi aos nobres
E comprou, pra seus iguais de sangue e ideais, a alforria
A folia de reis começou

Celebram os seus ancestrais os negros bantos brasileiros
Com reis-meninos e rainhas, candombes, tamborzeiros
A Bandeira, a Coroa e todo o relicário
Maio, Outubro: meses de Nossa Senhora do Rosário

Foi com o ouro da pia de água-benta
Que comprou os colares de contas, os trajes bonitos
E enfeitou toda nação de reza e cantoria, som no tambor
A folia de reis começou

Glossário:
Sikelel´iAfrika = abençoe a África
Galanga = Nome do Rei do Congo
Kalunga = Mar
Madalena = Nome do navio que Galanga (Chico Rei) foi trazido para o Brasil
Malungos = Companheiros fieis até a morte
Encardideira = Mina de ouro comprada por Chico Rei
Bantu = nome que define uma lingüística de povos africanos
Tumbeiros = Nome dado pelos escravos aos navios que os transportavam
Sete-estrêlo = Grupo de estrelas da constelação de touro; símbolo de divindade
Ganga = Guerreiro de Zambi; sumo-sacerdote
nKosi ê = Unificador; guerreiro (nkosi = Senhor, Divindade)
Zumbarandá = A mãe mais velha, representa o início de tudo
Bantos brasileiros = Procuram manter no Brasil a cultura africana que celebra os ancestrais
Candombe = Um dos ritmos da congada.

Violão e vocal: Carlos Gomes
Percussão: Eduardo Sueit e Ton Zé

 

MESTRE GICA
Letra: Ivo Ladislau
Música: Carlos Catuípe
Intérpretes: Carlos Catuípe e Cléa Gomes

Feliz o lugarejo que ainda tem quem cante o canto de sua gente,
repassando as novas gerações o plantio desta viva semente....

Baixo e vocal: Mario Gubert
Percussão: PC
Tambores de maçambique: Salgado e Mário Duleodato
Declamação: Romeu Weber
Violino: Ben-hur Benitz
Participação especial: Dança Casa dos Açores
Grupo Maçambique e Pérola Negra

 

PRAINHA E MORRO ALTO
Letra: Ivo Ladislau
Música: Carlos Catuípe
Intérpretes: Carlos Catuípe e Cléa Gomes

Capitão chefe desta congada
Hoje tem festança, tem festança.
A moçada toda alinhada
Pra cair na dança, cair na dança.

Lá na prainha
Tem puita e machacá
E o maçambique
Tão gostoso de "dança"

Ai, vira os "pé" morena
Deste jeito maçambique.
Um gostoso vai e vem,
Que a gente quer repique.

Tem alferes capitão
Guia de dança...
Nosso rei, nossa rainha,
Com sorriso de criança.

Oi, "móia os pé",( oh morena)
Nessa lagoa
Um baile recheado
Muita cana e rosca boa.

Seu tamboreiro
Cuida bem da marcação
Os pés estão descalços
Saçaricam pelo chão.
E quando o povo
Vem dançar o maçambique
A festa vara a noite
E não há quem não fique.

Barco virou, barco virou
Deixa virar....
De perna para baixo
De fundo para o ar

Baixo e vocal: Mario Gubert
Percussão: PC
Tambores de maçambique: Salgado e Mário Duleodato
Declamação: Romeu Weber
Violino: Ben-hur Benitz
Participação especial: Dança Casa dos Açores
Grupo Maçambique e Pérola Negra

 

RIO DOCE
Letra e Música de Wolf Borges
Intérprete: Wolf Borges

Me sento ao lado do salão do rio doce
Me sento ao lado do adro do rio doce
E os peixes de olhar inocente
Procriando
Estiveram, Estiveram, Neste verão

Me sinto no lodo saudoso do beijo
Me sinto embalado no doce do rio
E os prantos do inconsequente
Planejando
Estiveram, Estiveram, Neste verão.

Me safo do ledo engano - desejo
Me sangro no lento
No leito do rio
E os pontos de estrela cadente
Desejantes
Estiveram, Estiveram, Neste verão.

Violão e vocal: Rafael Toledo
Percussao: Giovanni Berti
Teclados e vocal: Omar Fontes Junior

 

ROMANCE DE MEIA DOMA
De Ricardo Martins
Intérpretes: Ricardo Martins e Pirisca Greco

Luzia a prata do estribo
E o pingo atado ao palanque
Bombiava a argola da cincha
"Bajo" la luna minguante
Redomão das madrugadas
Num belo quadro fronteiro
Batendo os cascos no chão
E sacudindo os arreios
Dentro do rancho florido
O romanceiro espiava
O potro sonando as venta
Volta e meia uma fresteada
A morena flor da noite
O romanceiro um domador
Um em busca de sustento
E o outro de um grande amor
Bocal ao cabo da faca
E a experiência na conciência
Sem saber que a bela flor
Trazia espinhos na essência
A ilusão mostrou as garras
Ele a cavalo se foi
Ela perdeu o serviço
Deu tudo errado pra os dois
O romance foi quebrado
E a saudade lhes assoma
Sentimento não tem preço
Ela quis cobrar meia doma

Marcelo Pimentel: percussão
Marcelo Nunes: gaita botoneira
Juca Duarte: baixo
Evair Gomes: recitado
Ricardo Martins: violão

 

SABENÇAS
Letra: Ivo Ladislau
Música: Carlos Catuípe
Intérpretes: Carlos Catuípe e Cléa Gomes

A Sabença litorânea,
Brota da alma de sua gente:
Camarão é vazante
Roncador é na enchente
Pescador quer calmaria
E uma praia bem deserta:
A maré que enche e vaza,
Deixa a praia descoberta.
Um porongo de farinha,
Uma garrafa de melado
Pra que?
Pra estalar "os beiço"
Deixa o corpo açucarado...
Peixe de água "sargada"
Na água doce não vai se cria.,
E a corrida "dos peixe"
É pra "elis perfilha"
A Sabença litorânea
Tem sempre hora certa:
Rede que vai na ressolha,
É certo que volta repleta...

Baixo e vocal: Mario Gubert
Percussão: PC
Tambores de maçambique: Salgado e Mário Duleodato
Declamação: Romeu Weber
Violino: Ben-hur Benitz
Participação especial: Dança Casa dos Açores
Grupo Maçambique e Pérola Negra

 

TIRANA DO POVO
(esta parte do show é declamada e cantada)
Letra e Música de Wolf Borges
Intérprete: Wolf Borges

Ouve um hino que inicia uma batalha
Numa guerra declarada pró-cultura
Eis que povo já cansado quebra a farsa
E levante desafia a ditadura

Cada um desses artistas levam armas
Tambor, viola, estilingue, pau e pedra.
Pois bem sabem que todo teto de vidro
Faz um som bem percussivo quando quebra

Foram anos, foram décadas de surto.
Na música um narciso sem espelho
Goela abaixo uma canção tomou espaço
Em todo espaço só se ouvia este roteiro

Maquiagem, uma espécie de pintura
Na mulher que não se admitia feia
Um zumbido, um refrão que insistia
Hipnose, indução, ópio na veia

Foi apelo, foi semente de consumo
Que não brota no quintal do nosso lar
Uma árvore que não tem mais raízes
Fica fácil para o vento derrubar

Foram anos de invisível opressão
É projeto, é mercado, é propina
A cultura virou marca e produto
Uma indústria onde a arte faz chacina

Reis depostos no maracatu
Terno mofado no congo
Quadrilha só de traficante
Tirana verdade do povo.

Houve um dia em que o povo foi às ruas
Dar seu grito, dar seu sangue, chão, poeira
E a vitória nesse campo de batalha
Acendia uma verdade brasileira

Poderosas eram as armas do oponente
Invadiam pelo rádio e pelas telas
Ondas curtas, raio laser luzidio.
Que apagavam nossa luz tal como velas

Foi juntando um arsenal de arte rica
Veio Minas, veio o Sul, veio o Nordeste
Cada um trouxe a poesia em que confia
Cada um a melodia que quisesse

Reis devotos no maracatu
Terno formado no congo
Quadrilha dança como antes
Tirana ciranda do povo.

Na bandeira divina diversidade
E o povo pode ver tanta fartura
Eram tantas as correntes e verdades
Que era a nova abolição da escravatura

Nessa luta todo mundo é convocado
Para dar a sua participação
Basta entrar com a atitude de mudança
Basta vir cantar comigo este refrão

E assim vamos juntando muita gente
Que quer ser diferente, quer ser livre.
Toda arte quer ter oportunidade
E depois o nosso povo é quem decide

Reis depostos no maracatu
Terno mofado no congo
Quadrilha só de traficante
Tirana verdade do povo.

Reis devotos no maracatu
Terno formado no congo
Quadrilha dança como antes
Tirana ciranda do povo.

Violão e vocal: Rafael Toledo
Percussao: Giovanni Berti
Teclados e vocal: Omar Fontes Junior

 

TROPEIROS DO DIVINO
Letra: Ivo Ladislau
Música: Carlos Catuípe
Intérpretes: Carlos Catuípe e Cléa Gomes

Os Tropeiros do Divino,
De fazenda em fazenda,
Logo depois da bandeira,
Vêm buscar a oferenda.

A bandeira do Divino,
Pela poeira da Estrada,
Veio repleta de luz,
Passou nesta morada.

O alferes o tamboreiro,
Rabeca, viola, violão,
Vieram com o festeiro,
Na sua visitacão...

Oh, de casa meu senhor, ai
A bandeira está chegando...

A casa foi abençoada,
E também a plantação,
A mangueira, os currais,
Ao doente proteção.

Um pouco de cada um,
Sempre cabe o ofertório,
O leilão quebrará o jejum,
A festa, o foguetório.

A bandeira foi embora,
Agradeceu a família,
Para o ano ela volta,
Voltará com a folia,
Os Tropeiros do Divino,
Se despedem em cantoria,
Vão pela estrada à fora,
Repontando alegria.

Por esta porta "entremo", ai
Por esta mesmo "saímo", ai.

Baixo e vocal: Mario Gubert
Percussão: PC
Tambores de maçambique: Salgado e Mário Duleodato
Declamação: Romeu Weber
Violino: Ben-hur Benitz
Participação especial: Dança Casa dos Açores
Grupo Maçambique e Pérola Negra

 

UMA COISA SÓ
Letra e música: Carlos Gomes
Intérprete: Ivânia Catarina

Foi no tumbeiro Madalena que o mundo
Mandou pra nós Galanga Rei pra semear
A união entre os irmãos bantos malungos
A fé que tem a força para libertar
Oiá

Refrão:
Debaixo da terra é tudo uma coisa só
Na mina das Minas socando marreta respira pó
Se cai de cansado ´inda apanha no tronco que é de dar dó
De noite ainda acha energia pra fazer folia no mocó

Eta, raça danada
Todos, criação de Zâmbi
E já eram reis antes dos reis
De Moçambique, da Guiné
Trouxe pro Brasil o candomblé
Trouxe o bantu Galanga Chico Rei
E o remelexo da obá

Trouxe do Congo o repique
Na condução do tambor
Alegria maneira na capoeira
Simbalô, simbalô de sol a sol
Fez a ginga na morena, no futebol
E do suor de seu corpo brotou o sal
Que inspirou o carnaval

Glossário:
Galanga = Nome do Rei do Congo.
Madalena = Nome do navio que Galanga (Chico Rei) foi trazido para o Brasil.
Malungos = Companheiros fieis até a morte
Bantus = nome para definir a diversificação étnica existente na época
Tumbeiros = Nome dado pelos escravos aos navios que os transportavam
Bantos brasileiros = Procuram manter no Brasil um pouco da sua cultura na África
Candomblé – Religião afro-brasileira.
Zâmbi – Deus dos povos africanos
Oba – entidade feminina, um dos orixás.

Violão e vocal: Carlos Gomes
Percussão: Eduardo Sueit e Ton Zé

 

ZÉ DO BURRO
Letra e Música de Wolf Borges
Intérprete: Wolf Borges

Zé do Burro repentista do sertão do lixo
Zé do Burro sertanejo, artesão, pingente
No cenário da cidade, no centro do desencanto
Tenta dar algum sentido, rimando seu desespero
Seu boneco de estopa, seu xarope pro cabelo
Mata a cobra e leva o pau
Da polícía ao moambeiro
Zé do Burro sua arte, gente como um bicho
Zé do Burro capataz, poeta, puteiro.
Debaixo do viaduto, pressionado no metrô
No canto desiludido, no som do seu "rockenrô"
A paixão pelos "De Bitos" fez seu sonho de cantor
Mas caiu na grande seiva, requentando seu valor.
Burro do Zé vai ser alguém
Veio pra cá ganhar dinheiro
Burro do Zé vai ser alguém
Herói da pátria violeiro
O pivete, o macumbeiro, o jogo do bicho.
Travesti pela vitrine assiste televisão.
Outdoor de detergente no meio do lixo.
Velho cego bilheteiro defende seu ganha pão.
Violeiro Zé do Burro canta como um grito.
Entoando seu ofício de inútil cidadão.
Reza como um compromisso pro seu Padim Ciço.
Sobrevive qual menino como olhar da aflição.
Zé do Burro se atormenta no meio da noite.
Crush, crack, fax, sex, mc.donald, pavor.
Escravo da violência, vitima do açoite.
Zé do Burro canta a sorte de ser um trabalhador.
Burro Zé não tem talento de ser desonesto.
Burro Zé desiludiu de ser um pobre sonhador.
Seu puro canto de lamento é quase que um protesto.
De quem perde a esperança de voltar pro seu amor.

Violão e vocal: Rafael Toledo
Percussao: Giovanni Berti
Teclados e vocal: Omar Fontes Junior